domingo, 3 de setembro de 2017

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Olho pro mundo e me dá preguiça de tudo
o que não sabe morrer:
guerra
fome
indiferença -
corpo de um mesmo ser:
exato
parado
disforme.

Como é demorado o parto.
O parto real...
Aquele que compassa com as formigas,
se inspira nas preguiças,
mantém contrações de lesmas e
caminha como tartaruga no deserto.

De tudo o que sei é sabido não saber quase nada.

Aff...
Que eu desejo o nada
Os longes dos horizontes sempre andantes
O inesperado.

Como é cansativo andar entre as pessoas sem poder confiar
nelas e em mim.
Andamos com a sensação de que a qualquer momento podemos
matar ou morrer.
Seja por tudo ou por nada.
E isso é tão antigo...
Tão mais do mesmo...
Comida estragada que nos faz mal.
Nos embota a beleza viva da vida.

Deixemos nossos olhos descansar um pouco.
É tempo de evocar a pele
do corpo
da alma
da vida
e deixar que ela - companheira tão profunda e infinita - nos conduza ao humano em nós.

sábado, 29 de abril de 2017

E o palhaço o que é? Plantador de bonitezas no coração da vida, ué?!

Para os mais íntimos... Palhaça Marcha Lenta!

 Tudo começou quando, lá na infância, durante muitas aulas de matemática, as borboletas vinham me visitar pela janela da sala de aula. Eu estudava numa escola que ficava de frente pra Baía de Guanabara e tinha muitas árvores em seu terreno. Era tão bom ir para lá... E o que mais me encantava? Conversar com as borboletas! Foram anos de recuperação em matemática por causa disso, mas nunca me arrependi... Elas tinham tantas coisas para me contar em seu silêncio que eu praticamente nem ouvia a voz da professora. Quando chegava em casa a alegria era tanta que minha mãe, ao invés de me pôr de castigo ou ralhar comigo por conta de tantas insignificâncias, me regava ainda mais com livros e histórias. Meu pai, que sempre foi muito engraçado, ao ouvir o que eu tinha aprendido com as borboletas na escola, dizia me acarinhando: “Mas é uma pateta mesmo! A pateta mais pateta do papai!”. Eu não entendia muito aquele apelido, mas sempre senti tanto amor vindo de meu pai que nem me incomodava.
Até que um dia na escola, durante uma aula de Educação Física, anos mais tarde, a professora, sem saber o que faria com a turma, simplesmente deu a bola e intimou que todos jogassem futebol. Foi uma loucura, pois sempre em toda turma tem aqueles seres monstruosos querendo vencer e impor sua força e brutalidade aos outros... E eu sempre fui baixinha... Pra piorar a situação me colocaram no gol. Minha cabeça me dizia que aquilo era para me sacanear, mas meu coração estava tranqüilo e disposto a não fazer nada. Minha sorte é que eu sempre tive bons amigos e, durante a partida, alguns dos meninos ficaram no gol comigo... uma bagunça! No que a bola vinha na minha direção, eu corria em direção oposta. Se alguma brutamontes ameaçasse me pegar ou chutar a bola para me machucar, eu me escondia atrás dos meninos, que sempre me protegiam. Nessas horas, elas gritavam com muita raiva e em coro: “Mas é uma songamonga mesmo!”. Aquilo me feria um pouco, mas eu sempre tinha em mente as palavras sábias de minha avó: “Filha, lembre-se sempre que seu nome é você e nem todos sabem disso, por isso dizem ofensas que no fundo revelam a elas mesmas!”.
Os anos foram passando e, curiosamente, eu fui convocada pela vida a ser professora. No magistério descobrir que não aguento ser apenas um ser que marca freqüências, reprova alunos, impede as crianças de brincar, tem que ser sempre sisudo para ser levado a sério... Aff!!! Percebi que também precisava ser outras, tal qual o mestre... Precisava continuar minha conversa com as borboletas. Foi aí que nasceram em mim a poesia e o teatro, artes que me reconduziram às minhas amadas palavras aladas da infância. Em estado verbal de poesia e teatro comecei a me dar conta da riqueza daqueles momentos descritos acima. Quantos elementos! Quantas cores! Quantas outras de mim já estavam ali, latentes, esperando o momento certo para desabrochar.
No desejo de sentir meu cheiro, me afastei do mar e rumei para a serra, lugar onde algo de muito mágico aconteceu: conheci seres tão patetas quanto eu. Pessoas encantadas e dispostas ao desencontro de ser, com as quais pude continuar o desafio de raspar as tintas com que haviam me pintado os sentidos. Comecei a sentir a necessidade de revisitar minha história, minhas dores e conflitos, principalmente, e transformá-los em potência criativa, contrariando todos os códigos psicossociais que nos dizem todos os dias que são justamente essas coisas que nos adoecem. Quanta bobagem! Pois foi na beleza encontrada na dor que minha patetice de infância começou a tomar contornos de borboleta. Como são potentes as perdas de quem amamos, as distâncias que não desejamos, os fracassos que não esperamos, as decepções que quase nos aborta o caminho. Foi então que descobri: meu cheiro sempre teve aroma de palhaço!
Ser palhaço... Quando pequena olhava para aquele nariz vermelho e me perguntava: “Como consegue sorrir se seu nariz está sangrando?!”. Hoje procuro reencontrar essa intuição de infância, que já me dizia o que era verdadeiramente sorrir. Hoje meu sorrir resguarda e revela o que sou de mais íntimo com as borboletas: Marcha Lenta, luz interna vista por meu pai após uma longa conversa:
- Pai, você é o maior palhaço da minha vida. Você foi a minha maior dor! Não é maravilhoso!
- É, filha, você realmente é diferente... nunca regulou muito bem... tem a quem puxar! – apontando para si mesmo.
- Mas, pai, sou uma palhaça sem nome... ainda não consigo ouvir...
- Hahaha... natural! Você sempre foi devagar... lerda mesmo, sabe?! Minha eterna Pateta! Olha aí: Pateta!
- Não! Pateta já existe... Sei lá! É outra palavra que pulsa em mim... Mas não consigo ouvir!
Foi quando meu pai, com seu sonho de astronauta, me levou para ver as estrelas. Ficamos em silêncio durante tanto tempo que quase me esqueci do que havíamos falado antes. Ele me olhou profundamente e, como de costume, contou uma piada enigmática. Para mim, sempre, todas as piadas são enigmáticas. Quase nunca as entendo e, quando entendo e começo a rir, ninguém sabe mais o motivo de minha risada.
- Hahahaha... Eu sabia! Escute, filha,- colocando as mãos em meu coração – ele pulsa: Marcha Lenta!
De agora só posso dizer que já não consigo mais não ser o que sou... E eu sou, entre tantas outras coisas, Marcha Lenta: palhaça-poeta nascida para plantar a demora nos olhos das gentes. Como sou grata aos coros violentos da infância! Às sábias e generosas dores... O que seriam dos palhaços e dos poetas sem elas?
No alto das montanhas, cheias de árvores e rios, as borboletas são por toda a parte. 

A infância, eu sendo Marcha Lenta e minha mais luminosa borboleta, 
minha irmã e companheira, Lua Cheia.
                 

sábado, 25 de março de 2017

Crescer não é fazer aniversário

Muitas pessoas apenas fazem aniversário, mas não crescem. Talvez isso justifique o mundo no qual insistimos em repetir. Talvez isso também justifique o fato de muitos jovens não desejarem ou saberem crescer. Olham em volta e os ditos adultos não os espelham em sua sinceridade e ousadia. Estão, a maioria, sem referências, pois ao invés de adultos reais vêem a aberração de uma infância transformada em infantilidade. Os infantilóides não são os jovens que recusam seus adultos, mas os adultos que insistem em não crescer.

Olho para as árvores... – mangueiras! Guardo dentro da alma uma mangueira sagrada... sonho ser como ela... enfim... – e não me lembro de vê-las frutificar no instante prepotente de suas vontades. Não! Elas frutificam quando é chegado o tempo. Não apenas o seu tempo, mas o tempo da vida, o tempo da semente, o tempo do próprio tempo. Frutificam e se multiplicam em milhares de possibilidades sem se boicotar no caminho. Abrigam pássaros durante longas temporadas... e não consta que cobrem alugueis por isso, deixando-os ir sem lhes cobrar presença ou retribuição por tudo o que lhes foi dado. Mangueiras crescem de verdade, Senhores! E nós?

Fico pensando o quão pequena é ainda nossa alma, isto é, nosso olhar para o mundo, pois, vejam bem o que fizemos com o amor, o abrigo, a liberdade... Nos deixamos envenenar por palavras absolutamente falecidas das bocas que as pronunciaram e não percebemos que, ao repeti-las, ajudamos na manutenção desse mundo que já não suportamos mais. Que loucura é essa, Senhores? Ou seria excesso de racionalidade?

O fato é que desde que me dei conta disso passei a me desejar tal qual uma mangueira. Não que eu deseje ser ela, não é isso... mas desejo incorporá-la de tal modo a me permitir crescer e frutificar plenamente. As crianças estão percebendo isso e, de algum modo, demonstram prazer em brincar com meus galhos e descansar a minha sombra. Conto para elas que não existem plantas, animais, minerais, seres humanos ou qualquer outra categoria que nos possa segregar. Conto-lhes que só existe a alegria de sermos seres com todos os outros seres dentro do grande ser que é a vida. E não me venham com oposições de ordem filosófica, hein?! Escrevo o que vejo, oiço, gesto, sinto com o corpo inteiro, como bem ensinou meu mestre. Seres sim que por necessidade divina comungam o corpo da luz, para que ela própria irradiada possa se consumar.

Sim. Os seres são uma necessidade sagrada... assim como a palavra para o poeta, a luz para o pintor, o silêncio para o músico, a vida para o ator... Exercer a vida sendo com toda a realidade é ser genuinamente o encontro do sagrado com ele próprio. Por isso, em minha loucura de poeta, converso com mangueiras, gatos e crianças. Procuro escutá-los com a alma desperta de tal modo a tatuar na pele dos olhos seus mistérios. Todos me narram as verdadeiras cores do sol e, com eles, vejo o sol sempre com cores diferentes. Foi embebida nessa loucura de ser o que sou que passei a olhar com olhos de ver a magia de simplesmente crescer...

...

Havia chovido e ventado muito na noite anterior, mas mesmo assim decidiram ir. Ele estava apreensivo por conta da forte chuva que haviam pegado no caminho, mas, ao mesmo tempo, animado pois seria o primeiro momento completamente sozinho com sua grande paixão.

Depois de caminharem um longo caminho a pé, chegaram ao portão do lugar mais sagrado para ela. Imaginem o lugar onde suas almas foram forjadas em cores, aromas, voz, gestos... pois é... eles estavam diante da alma dela, e ele nem desconfiava.

Entraram.

A quantidade de galhos espalhados pelo chão era assustador e várias das mangueiras presentes no lugar estavam completamente descabeladas e aparentemente machucadas. O coração dela apertou. Sempre aprendeu a amar o vento. Sentia que mais cedo ou mais tarde se deixaria levar por ele. Mas aquele vento... por que fez isso dentro da minha alma?, se perguntava ela.

Foi então, depois de longos arrepios, que se lembrou de sua amiga, mangueira plantada na infância por ela, sua mãe e avó. Correu para vê-la. Chorou. Atingida por um raio, sua amiga estava com o corpo cindido ao meio. As raízes negras. A terra ao redor chorosa... Ajoelhou. Pediu-lhe perdão por não estar ali na hora do acontecido... por não protegê-la como havia prometido na infância. Foi para casa com a sensação de que também ela havia morrido. Aquela imagem nunca mais saiu de seu coração. Ainda naquele dia, recolheu o corpo de sua amiga e o colocou num lugar protegido, com a esperança de que pudesse fazê-lo ressurgir. O tempo foi chegando. Longo e lento como só o tempo saber ser. E todas as vezes que voltava para aquele lugar, ia ao encontro do que restou de sua amiga.

Já conformada, começou a notar que o corpo morto de sua mangueira amiga havia se modificado. A coloração das raízes e do solo a sua volta estavam diferentes... seu coração bateu forte... a árvore de sua infância estava viva! Ao romper dos primeiros galhos, chorou... Seu tronco, agora mais forte e robusto do que antes, exalava um marrom tão vivo quanto o marrom dos olhos de sua avó ao gargalhar...

Hoje ela frutifica dentro dos meus olhos... Seja lá que rumo eu tome, meus passos são sempre dentro do corpo dessa árvore... bebo da seiva de seu ser para me aprender melhor e cresço. É de dentro dela que falo agora, Senhores. Sou a intuição encarnada dessa eterna mangueira. Entre nós o diálogo é tão intenso que já não precisamos mais nos dizer uma para outra. De nós, frutos, dores e silêncios são gestados dentro dos raios para compor com a vida o desafio de eterna e internamente crescer.



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Poesieira de histórias

Queridos leitores, compartilho com vocês o nascimento de mais uma ação do Projeto Poesiar, criado por mim para semear o alimento feito com palavras vivas.

Poesieira de histórias é a maneira pela qual minha alma se manifesta desde criança... cheia de encantamento e plenitude nas realidades mundificadas pelos poemas e histórias sussurrados aos pés dos olhos...

É por gratidão à vida que devolvo ao mundo as histórias... nascentes de minha alma e meu corpo... agora tingidas no horizonte com a ventania de minha voz...

E para ser esse parimento retorno ao lar... na Ilha do Governador... sal que me plantou para mar...

Venham!!! Venham todos!  



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Cirandando com Fernando Pessoa

É com grande alegria que convido todos vocês a participar do Projeto Poesiar, criado com o objetivo de promover Rodas de Poesia e Pensamento a fim de semear a palavra como possibilidade sagrada de transformação individual e coletiva.

A banalização da palavra vem conduzindo o homem ao distanciamento da sacralidade da vida. Por isso, é urgente percebermos que a palavra é mais do que código linguístico, é principalmente a corporeidade pela qual acolhemos o mundo e nos entregamos a ele. A palavra é o exercício do que somos. Sendo assim, é fundamental que mundifiquemos espaços para que possamos nos acolher dentro dela. Nesse sentido, temos que a poesia é a materalização da palavra em estado verbal, genuíno e, por isso, constitui-se a fonte e a foz de nosso mergulho.


A partir da leitura de obras de poetas e escritores consagrados, como: Fernando Pessoa, proporemos dinâmicas nas quais as pessoas serão convidadas a reconhecer as palavras que verdadeiramente habitam seus corações. Tal movimento trará o corpo e suas possibilidades para compor o processo de interpretação e integração de cada pessoa com sua realidade-palavra interna. O que pretendemos é semear o nascimento de novas palavras e poetas capazes de serem autores conscientes das palavras sagradas que gestam.

Maiores informações... 








terça-feira, 20 de setembro de 2016

paisagens de compôr professores-luz

Ser antes de tudo humano... olhar cada coisa e pessoa como algo vivo e pulsante. 

Ser capaz de desconstruir dogmas, preconceitos e moralidades que possam interferir negativamente no livre arbítrio das pessoas.

Precisa ser/ter um olhar escorregado por todo o corpo... capaz de focar principalmente no lado cheio do copo, que é o coração e a alma de cada ser humano ou irmão vivo que conosco comungue a vida.

Precisa estar disposto a aprender mais do que ensinar... estar consciente de que nossas crianças são pequenos seres de luz vindos à Terra para nos anunciar as novidades de deus.



Precisa discernir entre a diferença ética entre sentir pena e compaixão, quando diante de seres julgados como necessitados, negligentes ou algo do tipo.

Precisa, aos poucos, perceber que a educação de uma criança necessita de uma aldeia inteira e não de clãs ou salas de aulas com portas fechadas, ditando liberdades-fake vazias de afeto.

Precisa ser sábio como um jardineiro... paciente... muito paciente... e apenas auxiliar as sementes a serem o que elas são... e elas são belas e inteiras...

Precisam ouvir as crianças e suas histórias... acolher seus lares... mais do que falar/orientar/mandar para que façam mais do mesmo.

Olhar a vida como sendo sempre a primeira vez e comemorar a vinda do novo, do inaugural... do sagrado de sermos vida dentro da vida.

Gestar, com o ventre repleto de canções, todas todas todas as infâncias!!!!!!



domingo, 21 de agosto de 2016

Internidade

Era sempre assim. Olhava para o céu em busca do chão. Pisava no chão para melhor sentir as nuvens. De tudo o que desejava, só o vento poderia lhe trazer. E enquanto não trazia, ela ficava lá, no alto da montanha, aprendendo a fazer ninhos com os passarinhos.
Era sempre assim. O dia demorava rápido a passar e lá estavam as pessoas de um lado para o outro sem saber ao certo que rumo tomar. “Mas ele me abandonou...”, diziam umas moças por aí, e tudo seguia na mais perfeita ordem. Na televisão o noticiário de sempre... assaltos, violências, vinganças. Ela, do alto da montanha, distraidamente,  mergulhava no sal.
Descobrira há algum tempo que a voz das árvores canta o mar. É o mar. O mesmo mar que pensava ter deixado para trás. Agora em tempos de folhar, seguia sempre o horizonte de seu novo-antigo mar. O que poucos sabiam é que ela precisava dele para sentir. Sua pele era costura feita com mocroscópicos cristais da mais fina areia. Seu coração salteava ventos presentes em todos os desertos. E seu sangue... a mais intensa tempestade.
No dia que subira a montanha, não sabia que mar era não se saber nele. Chorou. Pensou em voltar. Desistir. Queria mergulhar no que já sabia. A vida não quis. Era preciso que se abandonasse até esquecê-lo de vez. Era necessário abandoná-lo para o reencontro.
Era sempre assim. A solidão, vendida como quinquilharia, era seu maior quinhão. Gostava de horas sem fim fazendo nada, só ouvindo o que a solidão lhe dizia. Tentava escrever. Nada saia. Tentava cantar. Só barulho. Tentava dizer algo que povoasse o coração, seu e dos outros. As palavras pareciam dormir.
O céu lampejado de flores dizia que azul é canto de nuvem quando brinca de chuva com o grão. Ouvia isso e via de repente a gargalhada de sua avó ao fundo. Todo o universo era ali. Engraçado respirar a eternidade enquanto se é finito, pensava ela. Ela ruminava o sopro e lançava pólen nas vestes da noite. Certa vez, sua avó lhe disse que estrela era isso: céu grávido de sonhos e que cientista não sabia disso porque não sonhava mais, só explicava, explicava... coisa chata! Vai sonhar, filha, e engravidar o céu! Afinal de contas como você acha que o mundo foi feito?
Era sempre assim. O sol se nascia para dentro do olho. Ela cegava de afeto e relampejava gotas de alecrim. (Dizem os anjos que o corpo de deus brilha em forma o cheiro do alecrim). Nesses dias ela sabia que havia transbordado o som e que o homem amanhecia para o alto da montanha.
Era sempre assim. O alto da montanha, ela e o mar. Ela queria levar todos os homens para lá. Mostrar como era fácil a solidão quando se acaricia a face da lua. A lua... Do alto da montanha, bastava esticar o braço para o cavaleiro andante, morador da lua, levá-la ainda mais alto. De lá do alto, ela olhava, olhava, olhava... pra dentro tudo é abismo. Quanto mais alto, mais pra dentro... pra dentro... dentro... Eles se olhavam sempre em silêncio. Silêncio foi a maneira que encontraram de se internizar em amor.
O som das águas dizia que seu corpo fora feito para destroços, costurado com a mais fina necessidade de desmoronar. Todo seu andar desaguava verdades muito íntimas e pequeninas... que se espelhavam rio a fora... desde a foz.
Disseram para ela que a chegada era o fim. Mas ela mesma não ouvia assim. Lambia o corpo da vida e exalava uma existência repleta de foz em fonte... a sua chegada era sempre assim. Toda chuva em estado de parto dá a luz ao mar... um novo e renascido mar... instante de reencarnação do rio.

Olhava, olhava, olhava... e era sempre assim... o alto da montanha, ela e o mar tornados uma só carne para vigência e abrigo da poesia.